Violência no interior de SP reflete migração do crime das capitais


COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE RIBEIRÃO PRETO
A onda de violência registrada neste ano no interior de São Paulo, com chacinas e ataques a policiais, é um reflexo do fenômeno de migração da criminalidade.

A afirmação é de Sérgio Kodato, 58, professor de psicologia social e coordenador do Observatório de Violência Institucional da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo).

Folha - O que poderia explicar essa onda de violência no interior, semelhante ao que ocorre na capital?
Sérgio Kodato - Um dos fatores é que o crime passou a se organizar como uma empresa diversificando os negócios, como roubos de motos, cargas, lojas, roubos a mansões, fazendas, sequestro... Por outro lado, houve uma redução nos números de homicídios nas grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro, nos últimos cinco anos devido ao trabalho das polícias e políticas de segurança pública. Ou seja, onde existe repressão é obvio que uma parte do crime vai migrar. É o que chamamos de "capilarização" do crime.



Quais acontecimentos demonstram essa migração?
O assalto ao Banco do Brasil em Monte Alto, ataques a caixas eletrônicos em pequenas cidades. O município de São Sebastião do Paraíso (MG), por exemplo, era uma cidade bucólica há dez anos. Recentemente, teve uma apreensão de 120 adolescentes envolvidos com tráfico. Você tem o crime organizado trabalhando como uma empresa multinacional.

Essa mudança no perfil da criminalidade é recente?
A partir de 96, com crack.

Essa situação demonstra alguma falha por parte do Estado?
Há dez anos o bandido que matasse o policial estava perdido. Todo mundo ia atrás desse cara por uma questão de honra. Agora você tem uma situação em que eles fizeram uma lista dos policiais que são inimigos, que são rígidos, que querem prender bandidos. Isso indica que houve um enfraquecimento da polícia e um fortalecimento do crime organizado.

Ônibus incendiados em Ribeirão são ações desses grupos?
Essa história de queimar dois ônibus em Ribeirão não é ato isolado. Nenhum ladrãozinho vai queimar um ônibus. É uma ação espetacular de propaganda. É uma ação organizada. A maioria das ações é planejada, com claro intuito de vingança.

As chacinas ocorridas em São Carlos e em Araraquara...
Um pesquisador do Observatório de Violência, ao analisar as execuções de Araraquara, com cinco mortes, e São Carlos, sete --aparentemente tudo com armas 9 mm--, entende que a polícia está enfraquecida e muita gente quer sair da polícia. Os caras ganham R$ 2.000 por mês, falta equipamento... Por isso, ele falou que sete de uma vez, com 9 mm, tem cara de ser coisa de policial.

Isso justifica o temor da população em relação à violência?
Ocorre um exagero na percepção da população em relação à criminalidade. A média no Brasil é de cerca de 25 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em Ribeirão deve estar em torno de 15 para cada 100 mil. Em São Sebastião do Paraíso, ocorre um ou dois homicídios por ano. Então, o índice é muito baixo. Não tem criminalidade de verdade, mas a população adotou o mesmo estilo de vida de quem vive na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

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