Após matar ladrão, idoso teme vingança em Mogi das Cruzes (SP)

O agricultor Akira Utsunomiya, 84, mirou com a espingarda calibre 12 e atirou, de dentro de casa, contra a porta de vidro. Do lado de fora, um dos homens que tentavam invadir sua casa, num sítio em Mogi das Cruzes (na Grande São Paulo), tombou, atingido no rosto, com o revólver calibre 38 na mão.

'Ele não quis bancar o valente', afirma filho do agricultor

Cabeça branca, cerca de 1,60 m e a coluna arqueada em consequência dos longos anos de lida na roça, Akira vive do plantio de hortaliças.

Nascido no Japão, o imigrante --que assim como boa parte de seus conterrâneos veio para o Brasil durante a 2ª Guerra Mundial-- disse que disparou para defender sua família após ser alvo de tiros dos criminosos, na última segunda-feira.

Uma semana antes, uma idosa de 87 anos baleou um homem que invadiu o apartamento dela em Caxias do Sul (RS). O tiro acertou o peito do suspeito, que morreu.

A arma do oriental, com cadastro feito em 2010 e válido até 2013, é legal, segundo a polícia. Tão dentro da lei quanto o disparo feito contra o ladrão, que morreu minutos depois no hospital.

Trancada em casa, a família Utsunomiya teme agora uma vingança dos criminosos que escaparam. Por isso, o serviço reservado da Polícia Militar monitora a casa.

"Ninguém quis bancar o valente. Meu pai só defendeu a propriedade e a família dele. A gente está com medo", disse à Folha um dos filhos.

Ele também estava na propriedade quando os homens invadiram o sítio e fizeram a mãe dele, Saeko, 81, refém por quatro horas no galpão que fica atrás da casa.

INOCENTE
Para o delegado do município, o idoso é vítima e não deve responder pelo assassinato de Thiago Cleber Olimpio, 25. Os demais ladrões, sim, são acusados de assalto à mão armada.

"Ele (o idoso) estava dentro de casa, deu um único tiro. Não há nada contra o senhor Akira", disse o delegado Cesar Benedicto.

Naquele dia, Akira tomou café e, às 6h30, saiu com seu carro para levar uma filha ao médico. Depois da consulta, se despediu dela e foi ao mercado. No sítio, Saeko cuidava da lavoura quando o grupo com armas e capuzes invadiu a propriedade.

REFÉM POR 4 HORAS
Eles levaram a idosa ao galpão onde são estocados os materiais de trabalho do casal. Ali ficaram por quatro horas. Acostumada a se comunicar em japonês com o marido, nada entendeu da conversa do bando, que só queria dinheiro.

Às 11h30, Akira voltou para o sítio, entrou em casa e nem se deu conta dos ladrões. Até ouvir as vozes da mulher e de pessoas que ele não conhecia se aproximando.

Da cozinha, viu por trás do vidro os encapuzados, que tentavam entrar. Com pontapés, forçaram a abertura.

Nervosa, Saeko desmaiou. Akira caminhou até o quarto e pegou a espingarda calibre 12. Quando voltou, os ladrões atiraram, atingindo a parede da casa. "Vi a minha mulher no chão e dei um tiro contra a porta", contou à polícia. Depois, se escondeu, com a espingarda nas mãos.

Do lado de fora, Olimpio caiu, atingido em cheio no rosto. Os comparsas o socorreram e o carregaram nos braços em direção a um matagal. Saeko se levantou e gritou até que o marido abrisse a porta.

Acionada pela família, a Polícia Militar chegou à propriedade dos Utsunomiya e viu o revólver, uma touca ninja e as marcas de sangue.

Em cinco minutos de busca, acharam o jovem ferido a cerca de um quilômetro do local do crime, onde os colegas o abandonaram. No bolso dele, todos os documentos -até a carteira de vacinação.

Dois dias depois, a polícia encontrou numa estrada próxima à casa duas mochilas. Dentro delas, revólveres calibre 32, munição e toucas.

Até a última sexta-feira, todos estavam foragidos. Olimpio não tinha passagens pela polícia, nem pela Fundação Casa. A polícia orienta a não reagir a assaltos.

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